O Que Vamos Ler em 2019? As Receitas dos Tradutores

 

“O que vamos ler em 2019? As receitas dos tradutores” foi a questão que juntou cerca de 40 tradutores (e, por ventura, alguns curiosos) no Museu da Farmácia, em Lisboa, no passado dia 22. O evento contou com um painel de cinco tradutores literários – Daniel Jonas, Alda Rodrigues, Maria do Carmo Figueira, Tânia Ganho e Paulo Faria – que, durante cerca de duas horas, partilharam as suas experiências. Através da excelente moderação de Luís Caetano, realizador e apresentador da Antena 2, ficámos a conhecer melhor estes tradutores e o mundo da tradução literária.

 

Maria do Carmo Figueira

Maria do Carmo Figueira é tradutora desde 1974. Começou a traduzir no banco onde trabalhava, até se lançar como independente 20 anos mais tarde. Antes de enveredar pela tradução literária, trabalhou ainda em tradução audiovisual, mas não se apaixonou. O limite de caracteres imposto pelo espaço restrito alocado às legendas não viabilizou a continuidade. Também fez tradução técnica, acabando por confessar que não é a sua “praia”. “É útil para sobreviver!”, afirmou, referindo-se ao facto de a remuneração ser mais elevada comparativamente com a da tradução literária. Na última década, traduziu cerca de 120 obras de ficção, entre elas As Cinzas de Ângela, de Frank McCourt.

Apesar de um currículo repleto de experiência, Maria do Carmo Figueira junta-lhe ainda cerca de dois anos dedicados ao ensino da Tradução na Universidade Lusófona. As memórias desses tempos não são as melhores, pois afirma que encontrou “talvez dois bons tradutores” ao longo desse tempo. O motivo? O problema era sempre o mesmo: desconhecimento do português e das suas regras, definindo-o como “diabólico e difícil de ultrapassar.” Os alunos não iam para Tradução por vocação, mas por exclusão de outros cursos.

Todos os tradutores profissionais sabem bem que não basta saber duas línguas para se ser tradutor, n’est-ce pas?

 

Alda Rodrigues

Antes de ser tradutora, Alda Rodrigues trabalhou 10 anos em lexicografia. Era responsável pela edição e atualização de dicionários bilingues e monolingues. Ao fim de uma década, estava cansada. Nunca fez tradução técnica, nem quer. Foi diretamente para a tradução literária, trabalho que a realiza.

 

A tradução é uma experiência de limites – tanto de prazer, como de dor.

 

Qual é o tradutor que, no decurso do trabalho, não se depara com vários estados de espírito? Começa-se com uma total confiança de que o trabalho vai decorrer suavemente, passa-se pelas primeiras dificuldades, dúvidas, obstáculos, por vezes, incerteza ou receio relativamente ao cumprimento do prazo, até chegar à satisfação (orgulho?) do trabalho concluído e do que se aprendeu ao longo do processo.

 

Daniel Jonas

Poeta e autor de, entre outros, Sonótono (Cotovia, 2006) e Passageiro Frequente (Língua Mota, 2013). Tradutor de obras de autores como John Milton, Lowry, Henry James, Wordsworth e William Shakespeare. Como dramaturgo, publicou Nenhures (Cotovia, 2008) e escreveu Estocolmo, Reféns e o libreto Still Frank, todos encenados pela companhia Teatro Bruto.

Encontra-se, de momento, a traduzir Os Contos de Cantuária, de Geoffrey Chaucer.

 

A obra de tradução e do tradutor implica um super leitor. Ou seja, a abordagem de um tradutor à obra que propõe traduzir tem de ser, na minha ótica, uma super leitura.

 

A propósito do local onde a conferência se realizou, o Museu da Farmácia, o tradutor afirma, em jeito de brincadeira:

 

O tradutor propõe apenas (…) um genérico daquilo que é a obra, o medicamento principal, embora se espere que o princípio ativo lá esteja.

 

Paulo Faria

Formou-se em Biologia, mas cedo, muito cedo até (na primeira aula, do primeiro dia do curso) soube que não seria esse o seu caminho. Licenciou-se, mesmo assim. Hoje é escritor e tradutor. Já traduziu, entre outros, Cormac McCarthy, George Orwell, Charles Dickens e Jane Austen. Para esclarecer dúvidas enquanto traduz Cormac McCarthy, um autor americano contemporâneo, Paulo Faria escreve cartas ao autor. Atualmente com 85 anos, McCarthy parece não usar e-mail.

O tradutor gosta de acompanhar os autores, e não de traduzir apenas um livro. Assim, teve a felicidade de ter traduzido todos os livros de Cormac McCarthy publicados em Portugal.

Ao falar sobre o trabalho de tradução, Paulo Faria cita o poeta e tradutor João Paulo Esteves da Silva:

 

O tradutor é alguém que vive num estado de insatisfação permanente, mas é uma insatisfação que não é paralisadora.

 

É impossível chegar à tradução perfeita. Esta não existe, e o tradutor sabe disso, mas vale sempre a pena tentar.

Meridiano de Sangue, de Cormac McCarthy (Relógio d’Água, 2010), é uma das obras que Paulo Faria traduziu e cuja leitura recomenda para 2019.

 

 

Tânia Ganho

Deu aulas de tradução na Universidade de Coimbra durante três anos. Fez tradução para os audiovisuais e trabalhou na SIC, como tradutora de informação. Aqui ficou apenas um ano. A urgência, o stress e a pressão, motivados por um constante “temos de ir para o ar”, não correspondiam à forma como gostava de traduzir. Considera, contudo, que foi um bom estágio. Hoje é tradutora e escritora de romances. Já traduziu autores como Leila Slimani, David Lodge, Chimamanda Ngozi Adichie, Ali Smith, Jon Banville e Jeanette Winterson.

Quando tem dúvidas que não podem passar sem uma resposta e a pesquisa não é suficiente, a tradutora revela que contacta os autores. Uma vez, perante o silêncio da autora Chimamanda Ngozi Adichie aos seus emails, viajou até Paris. Sabia onde a podia encontrar, num evento. Intercetou-a, identificou-se como tradutora das suas obras e afirma que só assim conseguiu resposta às suas dúvidas.

 

Leituras

A maioria dos painelistas afirmou não ler a obra na íntegra antes de iniciar a respetiva tradução. É que ler por prazer e ler para traduzir são atividades diferentes. “Ao lermos para traduzir vamos à procura de problemas específicos”, afirma Alda Rodrigues. A leitura é feita ao longo do processo de tradução. Aliás, as leituras, pois são feitas várias. O tradutor (literário ou outro) lê várias vezes o mesmo texto, até o compreender na íntegra e de forma inequívoca. E depois disso, relê o original e a tradução até encontrar o equivalente ideal.

 

Além da tradução per se

Os tradutores falaram ainda da parte não linguística do trabalho, lamentando a baixa remuneração. Este problema é transversal às várias editoras portuguesas, mas, segundo Tânia Ganho, estende-se a outros países. Colegas ingleses e franceses, apesar de ganharem mais (à página), também já lhe confessaram desagrado pelos valores praticados.

Os tradutores concordaram ainda que existe falta de reconhecimento do trabalho e papel do tradutor literário. Frequentemente, o seu nome não aparece na capa dos livros que traduzem, nem nos websites ou nos catálogos das livrarias.

 

O que vamos ler em 2019?

A conversa terminou com a questão que deu mote ao evento: o que vamos ler em 2019? Cada um dos convidados deixou as suas sugestões de leituras para o ano que se aproxima.

Foi ainda anunciado que, em 2019, o evento se irá realizar novamente. No entanto, os tradutores darão lugar a editores.

 

Para quem ficou com vontade de ouvir esta conversa, deixo aqui a gravação.

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