A Palavra do Ano e o Estado da Nação

A Palavra do Ano® é uma iniciativa da Porto Editora que visa “sublinhar a riqueza lexical e o dinamismo criativo da língua portuguesa”. Ao longo do ano, a editora analisa a frequência do uso das palavras. Nos meios de comunicação, redes sociais e consultas online, a distribuição e uso dos vocábulos são observados de modo permanente.

Pelo oitavo ano consecutivo, os portugueses foram chamados a participar na votação online. Numa fase inicial foram selecionadas 10 palavras candidatas. Esta lista surgiu do trabalho levado a cabo pela editora mas foram igualmente aceites palavras propostas pelos cidadãos.

“Empoderamento” é um dos termos a concurso. Pessoalmente, sou grande fã desta palavra. De uso bem menos frequente em português do que em inglês (empowerment), esta é uma palavra muito positiva. Segundo o Dicionário da Porto Editora, significa: 1. obtenção, aumento ou fortalecimento de poder. Não é mau, mas vejamos as significações que se seguem: 2. reforço de poder ou elevação do estatuto de um grupo social minoritário ou marginalizado; ou 3. processo de reforço da autoestima e da autoconfiança, de que resulta um maior controlo da própria vida e uma maior realização pessoal. Não dava uma excelente Palavra do Ano?
Também temos o termo “campeão”. Para amantes de futebol não há nada que explicar. Portugal tornou-se campeão europeu de futebol pela primeira vez. Em julho de 2016, a seleção nacional venceu a França na final da 15.ª edição do campeonato da UEFA. Campeões, nós somos campeões!
Em 2016, parece que o mundo descobriu Portugal. Pelo menos os resultados da indústria do turismo dizem que sim. Já não era assim tempo. Portugal é um país maravilhoso para turistas. Nós temos uma gastronomia invejável, bom clima, belíssimas praias e uma grande diversidade de cidades, vilas e aldeias com uma riqueza histórica e cultural imensa. Como se isto não fosse suficiente, somos um povo pacato e acolhedor. O termo “turismo”, nesta lista, faz assim todo o sentido.

 

“Presidente”, outro dos termos que foi a votação, arrecadou 6% dos votos. A palavra ganhou relevância em ano de eleições presidenciais, sobretudo devido à grande popularidade do candidato Marcelo Rebelo de Sousa. A 24 de janeiro de 2016, Marcelo Rebelo de Sousa vence as eleições presidenciais com 52% dos votos, tomando posse a 9 de março.
A lista de 2016 contou ainda com os vocábulos “brexit”, “geringonça”, “humanista”, “microcefalia”, “parentalidade” e “racismo”.
E cerca de 28.000 votos mais tarde, temos um vencedor!

E a palavra do ano em Portugal é…

Geringonça!

O vencedor desta iniciativa, com 35% dos votos, é o termo “geringonça”. De uso informal, a palavra ganhou fama aquando de uma referência de Paulo Portas à formação do atual governo. “Não é bem um Governo. É uma geringonça”. O então líder do CDS-PP designou assim o governo liderado por António Costa com o apoio dos partidos de esquerda. O termo ficou na memória, passando a ser usado para designar a maioria de esquerda no parlamento que apoia o executivo.

Palavra do Ano

Moçambique

Em Moçambique, a Palavra do Ano foi a concurso pela primeira vez. Através de voto livre, o povo moçambicano elegeu “Paz” como a palavra de 2016. O vocábulo foi eleito com 24% dos votos.
Moçambique

Imerso numa grave crise política e militar, a palavra vencedora representa o maior desejo do povo moçambicano. Cansados de confrontos entre os dois maiores partidos, a Frelimo e a Renamo, o desejo do povo moçambicano passa pelo restabelecer da paz.

A lista das dez palavras do ano contou ainda com “mamparra”, classificada em segundo lugar com 17% dos votos. O termo depreciativo é usado para classificar alguém considerado ignorante, inexperiente, parvo. O vocábulo tem ganho destaque online, aludindo ao comportamento de membros da classe política de Moçambique ao manterem o clima de conflito.
“Crise” e “dívida”, respetivamente em terceiro e quinto lugar na votação final, eram termos previsíveis para integrarem esta lista. A situação financeira do país caracteriza-se pelo desequilíbrio das contas públicas, desvalorização da moeda e elevados juros da dívida pública.
Foram ainda a votação as palavras “tchilar” (do inglês chill out, que significa relaxar), “educação”, “diálogo”, “solidariedade”, “txunar” e “liberdade”.

Angola

À semelhança de Moçambique, em Angola o concurso também se realizou pela primeira vez este ano.

Os angolanos vivem dias difíceis, com o país submerso numa grave crise financeira e económica. O termo “crise” foi, assim, não só um inevitável candidato como o vencedor, com 31% dos votos.

 

Angola
Os angolanos nutrem igualmente um desejo especial pelo termo “paz”, aqui com 6% do total de votos. As restantes oito palavras votadas foram: “candando” (sinónimo de ‘abraço’), “kixiquila”, “esperança”, “liberdade”, “diversificação”, “kandengue”, “kamba” e “kinguila”.
Esta iniciativa da Palavra do Ano evidencia assim a importância que as palavras têm no quotidiano de um povo. Da mesma forma, torna-se claro o quanto a situação socioeconómica do país marca o uso linguístico dos seus cidadãos.

Resta-me desejar que as Palavras do Ano de 2017 para Portugal, Moçambique e Angola sejam carregadas de significados ricos e positivos.

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